segunda-feira, 29 de abril de 2013



CONTRABANDISTAS


Deitou o pé ao travão e o carro derrapou uma trintena larga de metros antes de se deter. De noite, por aqueles caminhos de Deus e sem luzes, fora puro instinto. Aquela coisa escura atravessada na rodeira…
– Filhos d’um cabrão!
Não fosse a destreza e teriam aterrado em cima de duas tábuas crivadas de pregos. E depois, carro apreendido e negócio à vida!
– Bem bonda a furgoneta! – exclamou o Passarinho, já com a marcha atrás metida, pronto a sair dali disparado. – Mete as tábuas no carro – disse para o Flores – que, desta vez, vão ter de arrancar os cabelos se nos quiserem apanhar.
Fora há três meses, nos arames da raia. Carregavam meia tonelada de carnes de bovino quando foram surpreendidos pelos guardas. Foi o tempo de o diabo esfregar um olho. Ficaram sem nada. A carne foi a queimar e a carrinha despejada no parque da alfândega. 
Depois disso, compraram um boca-de-sapo em segunda mão, verdadeiro noctívago sugador de gasolina super, com quatro cilindros em linha, suspensão hidropneumática, capaz de saltar valados e atravessar barbeitos sem gaguejo.
Desprovido do banco de trás, transformava-se num cargueiro pronto a sulcar os mares da noite, como um tubarão de águas profundas em nado silencioso. Tapetes, carpetes, cosméticos, tabaco, roupa, calçado, carnes, congelados… tudo servia.
– E como metemos vinte e tal caixas de tabaco no carro?
– Desfazemo-las e empilhamos os maços soltos – explicou o Passarinho. – Primeiro na mala e depois tiramos o assento de trás e enchemos até ao cimo.
Ao fim de uma hora, o boca-de-sapo tragara, sem esforço, mais de uma vintena de caixas de Winston. Estenderam uma manta por cima do carregamento e, ao anoitecer, fizeram-se à estrada. Iam saltar ao fundo das propriedades de Don Pedro Martínez, intentando ludibriar a Guarda, num jogo de astúcias tantas vezes ensaiado.
– Acha que passam por aqui? – perguntou o soldado Cardoso, a esfregar as mãos sempre enregeladas.
– Se não passam hoje, hão de passar um dia destes – respondeu o cabo Soares. – Estende aí as tábuas. Vamos ver se caem ou não caem!
Raio de sorte. Tocava-lhe sempre a ele dar o corpo aos frios do planalto para montar as armadilhas. O cabo, pois não, ficava no jipe, enterrado na manta até ao pescoço. Desde o louvor, parecia feito de cristal, o engatinhado do homem. Só mandar, só mandar! Uma vaidade, uma altivez que só visto. O certo é que, desde então, toda a gente lhes falava com outro respeito: «senhor guarda para aqui, senhor guarda para ali…»
Mas as marcas de pneus, semeadas nos caminhos da raia, contavam tudo ao amanhecer. O Passarinho voltara às andanças. Aquilo eram noites sem descanso a passar tabaco. Ora a levar para Espanha, ora a trazer. O salto, esse, era levado a cabo em três pontos do recorte geográfico, todos três a alternarem sem regra, como numa roleta russa. Baralhava-se o jogo e dava-se. Baralhava-se e tornava-se a dar. De tal maneira que a rota só era decidida no exacto momento de se atirarem à sorte, que nem os guardas haviam de sonhar o quão insondáveis eram aqueles caminhos de Deus.
Conduzindo sem luzes pelo caminho da ribeira abaixo, tudo era adivinhar os buracos e as fendas na terra, as curvas e os declives. A pouca lua, à espreita entre restos de nuvens esfrangalhadas, deixava vislumbrar rasgos leitosos, abertos no matagal crescido a um lado e a outro da rodeira. Era por aí que o boca-de-sapo irrompia com o ímpeto de uma escavadora.
Por esses instantes, na tela dos céus, faiscou uma centelha de luar. Houve um pestanejar de vento sobre a folhagem dos pinheiros. Um sorvo de histórias passadas a correr na memória. Passarinho sabia e carregou no travão com toda a força. O carro baixou os morros e agarrou-se à terra com unhas e dentes, mesmo a tempo. Quando o manto de pó amainou, viram-nas bem, mesmo ali, a escassos centímetros, aquelas duas tábuas trespassadas de pregos caibrais.
– Filhos d’um cabrão!
Catarrento, o jipe da Guarda tossiu três vezes antes de cuspir um escarro de fumo negro. Quando por fim o motor roncou e os faróis se acenderam, já o boca-de-sapo tinha rodopiado num pião e acelerado em sentido contrário.
– Lá vão eles! – exclamou o soldado Cardoso, a esfregar as mãos enregeladas.
– Abre a janela e dispara! – mandou o Cabo. – Atira às rodas!
Bambo dentro de um corpo que os solavancos invertebravam, o rapaz lá foi dando à manivela até o vidro descer. O boca-de-sapo seguia uns sessenta metros à frente, escarvando a terra no declive das curvas. Os máximos do jipe queimavam impiedosamente a distância. Depois, muito a custo, o guarda tirou a pistola do coldre e armou-a. Agora era pôr-se de fora e atirar, mas apenas deu a cara ao vento, inundaram-se-lhe os olhos de lágrimas e os disparos perderam-se, sem alvo, na noite fria.
Passarinho deu uma guinada e meteu por um restolho, esquivando os carvalhos e as giestas que se abalançavam sobre o caminho. Os seus olhos, como se fossem as suas mãos, seguiam os olhos vivaços do boca-de-sapo.
– Vão direitinhos à ribeira. – previu o Cabo Soares. – Lá, em baixo, damos-lhes alcance.
Os carros esgaravataram ainda um bom hectare de baldio antes de desembocarem junto à margem do riacho que, por via do inverno, ia ancho de caudal e forte de corrente.
Passarinho inclinou-se sobre o seu lado esquerdo, estendeu a mão e puxou a alavanca da suspensão. Em poucos segundos, o boca-de-sapo elevou-se à altura de um todo-o-terreno e mergulhou, de viés, nas águas da ribeira. O jipe seguiu-lhe as pisadas, mas, por mor da tracção, as rodas bruscas escarvaram o fundo do arroio e o veículo resvalou sobre os seixos roliços. As águas sentiram a presa e abocanharam-na numa asfixia letal.
Ao amanhecer, os carabineiros da Guardia Civil espanhola toparam um boca-de-sapo preto na nacional seiscentos e vinte, no sentido Salamanca-Vilar Formoso.
– Passarinho, olha os motoristas!
– Filhos d’um cabrão!...


Obrigada pela partilha!




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